sábado, 28 de abril de 2012

VALE A PENA OUVIR & LER DIREITO: A polêmica existente em torno dos cães da raça Pitt Bull


Entre os defensores dos cãescachorros de raça Pitt Bull e os contra esta espécie de raça canina registramos aqui algumas impressões em torno deste assunto com propósito de confrontarmos os discursos dos que se opõem e dos que estão a favor.
Não é para menos, a mídia tem nos brindado constantemente com notícias de acontecimentos de agressividade e morte de humanos e de outros animais, todos causados por esta espécie de cães de raça Pitt Bulls, portanto, notícias chocantes atribuídas a estes caninos.
Para nos debruçarmos acerca deste assunto recorreremos nos recortes discursivos das entrevistas feitas a um dos amantes destes cachorros, estas tiradas de um jornal da praça, o Correio do Povo do dia 15 de abril de 2012. Buscaremos constatar os sentidos que permeiam os discursos que apontam a mansidão ou agressividade destes animais e assim, colocar a disposição dos leitores sentidos que possam contribuir na leitura binoculizada do leitor.
American Pit Bull Terrier nome provavelmente científico, mais conhecido como Pitt Bull é o animal doméstico que suscita elogios por quem o cria. Estes elogios provem da vigorosidade, presença e agressividade, ou seja, a sensação de segurança que os criadores sentem com a presença desta espécie de cachorro e suas vidas. Alguns donos desta raça afirmam o criarem, simplesmente por tratar-se de um cachorro, um animal de estimação como outro qualquer e não o atribuem sentidos de agressividade usualmente presente no meio social. De acordo com a médica veterinária mencionada acima, Pitt Bull não é considerado cão de guarda nas normas internacionais, mas sim de desporto (caça) ou companhia.
Paralelamente, temos outros sentidos que colocam no Pitti Bull categorias de monstruosidade, um animal não propício de ser criado por humanos, pois além de agredir os estranhos e seu ambiente familiar, costuma atacar crianças, portanto, filhos de seus donos. Estes sentidos encontram cenário favorável para estas atribuições dado que a mídia usualmente reporta casos de agressividade contra crianças, seguida de morte e agressividade para com outros cachorros.
As exibições públicas de Pitt Bull mostram um animal obstinado a aniquilar tudo que o interpela, menos o som forte de uma explosão ou fogo de artifício em que o animal procura espaço para se esconder, contudo, algo raro de se ver. Pode-se admitir que determinadas pessoas aceitam ter medo desta espécie de cão e sentem-se inseguras quando no caminho cruzam-se com um indivíduo a passear com o cachorro. Por outro lado, há que referir que o mesmo indivíduo que passeia na rua com Pitt Bull sente-se confortável, seguro, pois sabe que está portando uma arma em potencial.
Entretanto, para darmos maior compreensão do assunto trouxemos recortes discursivos de uma médica veterinária de nome Ana Paula Bina da Silveira (APBS). Estes recortes foram extraídos no jornal Correio do Povo do dia 15 de abril de 2012 de Porto Alegre no Estado do Rio Grande do Sul – Brasil.

Excertos:
APBS - Pitt Bull é um animal como qualquer cachorro, e, tal, segue o seu instinto, agindo de modo atávico. Esta raça é agressiva com outros animais, não com pessoas. Os Pitt Bulls puros não são agressivos. Os casos de ataques a seres humanos são perpetrados por cães mestiços.
A criação e o adestramento fazem a diferença. Se o cão for criado para ser agressivo, ele agirá desta maneira. É um animal com muita força. Nas mãos erradas, pode se transformar em uma arma em potencial. A raça não é agressiva com seres humanos. As pessoas insistem no erro de acharem que o cachorro pensa como ser humano. O cão não vai racionalizar que a criança, que ele está vendo é filha do seu dono. O Pitt Bull é um cão de caça, e, para ele, aquela criança é uma caça. O cão vai atacar, pois a paciência dele é muito curta.

Ao revirarmos estes dizeres da médica veterinária encontramos a oposição do pensamento que se centra na mansidão e a violência. Mansidão para os criadores e amantes desta raça canina, dado os atributos visíveis presentes no Pitt Bull neste segmento social. Por outro lado a violência sentida pelos detratores do cachorro manso na visão dos donos e criadores.
Perante a estes dois pontos em oposição, somos tentados a contrapor seis excertos que suscitam vários questionamentos. A APBS afirma que esta raça é agressiva com outros animais, não com pessoas, ou seja, a raça Pitt Bull não é agressiva com seres humanos, mas ao mesmo tempo afirma que o cão não vai racionalizar que a criança, que ele está vendo é filha do seu dono. A médica acrescenta realçando que O Pitt Bull é um cão de caça, e, para ele, aquela criança é uma caça. O cão vai atacar, pois a paciência dele é muito curta. Perante a estes excertos nos saltam sentidos que apontam a contradição. A referida profissional e criadora deste tipo de cachorro afirma que o Pitt Bull não é agressivo com pessoas, com seres humanos, mas por outro lado, para o mesmo cão de caça a criança é uma caça, ou seja, vai atacar, pois a paciência dele é muito curta.
Uma questão emerge. Seres humanos (provavelmente adultos, jovens) e crianças são categorias diferentes?
Será que as crianças saem da categoria humana e se enquadram na categoria dos outros animais? Que animais?
Abordar este tipo de assunto é complexo, pois envolve cultura, valores das pessoas, estados de pertença, a intimidade e certamente questionamentos que possam ser mencionados suscitarão discórdia, filiação. Tanto os criadores de Pitt Bulls como os que se sentem inseguros com a presença desta raça de cachorro têm direito de partilhar os mesmos espaços sociais. Há que se estabelecerem regras convivência para que os seres humanos, crianças como adulto se sintam seguros nos espaços públicos, pois como a médica referiu, Nas mãos erradas, pode se transformar em uma arma em potencial. Os seres humanos, crianças, jovens e adultos não são obrigados a acionarem seus sistemas de defesa perante o medo por estes animais de caça que segue o seu instinto, agindo de modo atávico. Ninguém é obrigado na rua ou em sua casa a aturar a paciência desta raça de cachorro quando este invade sua casa para atacar seus animais e nenhuma família é obrigada a entender a perda de seu filho devido ao ataque desta espécie de cão.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

IMPORTÂNCIA DAS COTAS RACIAIS NAS UNIVERSIDADES BRASILEIRAS

Quando cursava a graduação na Universidade Federal de Minas Gerais em Belo Horizonte, Minas Gerais em 1997, eu e meus conterrâneos quando parávamos em frente do portão principal no Campus da Pampulha na avenida António Carlos, a presença ou a entrada de estudantes negros brasileiros era muito escasso. Era difícil termos colegas negros nacionais. Verificávamos a entrada em maior número estudantes estrangeiros africanos e esta situação deixava-nos perplexo - Como é que não visualizamos a presença dos Pelés que fazem a imagem de um Brasil que respeite as questões raciais no mundo afora?
Compreendemos que nas questões étnico raciais, uma coisa é o que se tenta mostrar os outros e a outra é a realidade concreta. Despertamos quando em situações diferentes, escapamos ser vigiado pela polícia logo que entravamos no campus universitário. Vivenciamos a realidade brasileira quando fomos apontado arma pelos policiais e sermos tipificados por favelados e logo de seguida o nosso sotaque os desmentirem e baixarem as suas armas.
Terminei minha graduação em 2000 e 2001 voltei para o meu país. 
Na volta ao Brasil em 2005, para cursar o mestrado, vivenciava um cenário diferente. Via nos corredores das universidades pessoas nacionais negros, os chamados afro-descendentes, os brasileiros. A política de cotas raciais introduzida um ano antes em 2004 estava a possibilitar que os negros brasileiros entrassem no mundo das possibilidades e mostrava a possibilidade de nova configuração social, universitária e profissional.
Coragem a todos brasileiros que lutam incansavelmente para ver seu povo a ganhar, a desfrutar a notoriedade social e intelectual, apesar deles conviverem com outros brasileiros que incansavelmente se munem de teorias, artimanhas propagandísticas que projetem futuros irreais, falsas que desvalorizem suas lutas.
A política de cotas nas universidades brasileiras não é nova. Fora implementada nos meados do século XX para incluir filhos dos produtores rurais e promover o desenvolvimento rural. Contudo, para os negros torna-se polêmica, não é paradoxo?
O Governo brasileiro havia implementado a tal política, pois conhecia a realidade vigente na época das desigualidades de acesso às universidades entre as pessoas que viviam nas áreas urbanas e rurais. 
É tempo do Brasil vencer seus medos. Medos que impossibilitaram a igualidade na distribuição de renda, da terra que somente era desfavorável aos negros numa altura em que os navios europeus repletos de pobres europeus que viviam à margem do mundo atracava nos portos brasileiros a procura de melhores condições. Estes tiveram tratamento melhor, tiveram acesso à escola, terras, menos os negros. 
Esta situação alastrou-se até o século XXI, contudo camuflado nas questões da renda, finanças e na dita democracia racial.
A visibilidade de um futebolista ou um músico não pode medir a inclusão da maioria dos negros brasileiros excluídos até então.
Políticas de gênero deviam ser estendidas a outros sectores de atividades profissionais em particular nas instituições empregatícias, nos comerciais propagandísticos. 
Por outro lado, os negros deveriam ter mais atitude e não permitirem a banalização da história trágica de escravização, da selvajaria praticada contra eles e representada nas novelas, mas brindadas, banalizadas com cenas amorosas da/o escravizador em cenas românticas. Por acaso alguém pode me informar se alguma vez já viu um filme com cenas de genocídio contra judeus nos campos de concentrações e brindados com cenas romântica de alemãs a beijarem-se e ofuscarem situações chocantes e animalescas nazistas Acorda Brasil.

domingo, 22 de abril de 2012

A AGRICULTURA: Como é que a sociedade urbana vê a agricultura em Moçambique?


Está nos discursos político ou públicos e também nos discursos de alguns cidadãos o pensamento que coloca a agricultura como a base do desenvolvimento em Moçambique. Estes dizeres podem refletir o estar da situação rural, mas, sobretudo, aos olhos de quem vive nas zonas urbanas.
O que impõe a refletir é que de fato, a população rural de Moçambique é mais significativa em detrimento da população que vive nas cidades e, é real que a população rural vive da agricultura.
Contudo, há que referir que o viver da agricultura aqui referida pode não ter a mesma significação para um sujeito em países onde a agricultura familiar é incentivada com apoios em insumos agrícolas, tecnologia de precisão, ou seja, um sistema produtivo sistematizado e baseado nos resultados.
O agricultor ou a maioria das pessoas que vivem no meio rural em Moçambique cultiva suas machambas (sítios), plantando produtos destinados para sua alimentação e quando obtém excedentes, algo raro e difícil de obter devido a falta de assistência tecnológicas, acompanhamento ou monitoramento e os fenômenos naturais como as estiagens, comercializam seus excedentes.
O termo usualmente aplicado a este tipo de agricultura é subsistência. Contudo, a agricultura é significada nos discursos públicos como a base de desenvolvimento em Moçambique.
É exatamente em torno desta significação que pretendemos nos debruçarmos, pois para que a agricultura seja a base do desenvolvimento é necessário que a população esteja sensibilizada, motivada e com conhecimento profundo acerca da agricultura, seus processos produtivos, tecnologias que aumentam a produção por hectare e, a cultura de trabalho autónomo e, sobretudo as políticas objetivas da agricultura revisadas continuamente para o aumento da produtividade no campo.
Mas para que isto aconteça é indispensável uma mão de obra estimulada a viver no campo e atualizada em tecnologias de produção para que executem estas atividades agrícolas como oportunidades de negócios e não se sentirem diferenciados em termos de  valor humano das pessoas que vivem no meio urbano, ou seja, nas cidades.
Lembra-se que a sociedade moçambicana se constitui no meio rural. O êxodo das pessoas para as cidades é um fenômeno recente que se agudizou nos anos pré-independência entre os anos 50 a início da década de 70 e no pós-independência no período compreendido entre os anos de 1975 logo depois da independência Nacional ao fim da década de 90, neste último período acelerado com o advento da guerra civil que dilacerou o meio rural, desiquilibrando a estrutura urbana.  Cada vez mais as cidades ficaram repletas de pessoas de diferentes espaços geográficos de Moçambique a procura de segurança e também emprego, facilidades de consumo de bens industriais. Formava-se a partir daí as sociedades urbanas em Moçambique.
Volvidos décadas vivendo nas cidades, como é que estas sociedades antes rurais e atualmente urbanas significam a agricultura em Moçambique?
Para refletirmos em torno desta questão analisaremos a letra da música Escola de Hortêncio Langa, o músico tratado por ser da velha guarda e um dos embondeiros da cultura musical de Moçambicano. A escolha desta música neste texto é devido a filiação discursiva que a referida letra musical aborda no tocante e a escolarização e o ofício da agricultura, bem como a suposta valoração cultural e social dessa prática produtiva. Para analisarmos a letra musical do músico moçambicano Hortêncio Langa e possibilitar uma compreensão profunda nos apropriaremos da Semiótica Discursiva, portanto, uma disciplina teórica de linha francesa fundada pelo Greimas. “A semiótica tem por objeto o texto, ou melhor, procura descrever e explicar o que o texto diz e como ele faz para dizer o que diz” (Barros, 2007 p.7)
Perante a este texto podemos visualizar a circulação de determinados sentidos, valores e ideologias no meio social. A tomada da palavra pelo indivíduo no meio social é fruto da seleção dentre as várias palavras existentes em circulação nessa mesma sociedade e a seleção e colocação das palavras no fio do dizer para significar algo surge da necessidade desse indivíduo imprimir sua marca discursiva, suas convicções, sua crença e seus valores. Ao selecionar as palavras para dizer o que pretendemos expressar colocamos no discurso nossa constituição, nossos valores, nossa cultura. Assim, as palavras carregam valores e marcas idiossincrásica e, portanto, refletem os valores do indivíduo enunciador e também da sociedade.

Letra
A ku sukela ka tolo (Desde ontem)
U wa ku lova xikolweni (Só está faltando na escola)
Kasi u djikele kweni  u ya dza timbangi yaweno (Afinal, aonde se desviou ir fumar suruma?)
Nyamuthla u wa timbange (hoje é surumático)
U ta nama tsó u tsó (Sente prazer)
U li matwa u pheti wena hi ku dza timbangi tsé (Expressa prazer, fumando drogas?)
Ma buku a wu malavi (Não queres livros)
Ringisa sikomu u ta tuvika musi wena  (experimenta enxada)
Na u yaka Musambiki (vai arder, construindo Moçambique).

Ao analisarmos na letra Escola de Hortêncio Langa deparamo-nos com a oposição semântica fundamental que coloca o alfabetizado contra o analfabeto, este último recebendo valores caracterizados pelo sofrimento, a ardência e outros sentidos que nos escapam. Por outro lado, os valores aqui impressos apontam para o sucesso determinado pela atitude de ir à escola contra o fracasso caracterizado pela experimentação da enxada, prática aliada ao analfabetismo, segundo os sentidos presentes no texto musical, de pessoas que negam ou não foram à escola. Estes sentimentos que carregam valores do bem estar são intermediados pelo comportamento de não sucesso, este, consistindo no consumo das drogas e ficar na rua.

Sucesso ----------------------------------- não sucesso ------------------------------Fracasso
(euforia)                                           (não euforia)                                      (disforia)
Ir a escola                                   desviar-se da escola                   Experimentar enxada
                                                       consumir drogas

O sucesso de um indivíduo, a não ardência de um sujeito parte da aquisição de atitude de ir à escola e esta carrega consigo valores da euforia, um estar almejados por muitas pessoas, mas que são renegados pelo sujeito indeterminado e presente no texto musical. Este sujeito se desvia do caminho que o conduz ao saber na escola preferindo o consumo de suruma (maconha), atitude que faz com que seu conselheiro, o actante da comunicação, neste caso, o músico a substitui o primeiro compromisso de ir à escola, mandando experimentar a enxada para ver se arde lá no campo, na produção dos alimentos, algo que aliás, irá desenvolver o país Moçambique.
Assim, na letra musical de Hortêncio Langa, a voz discursiva aparece carregar os valores diversos, de pai, encarregado de educação a mandar ou a apelar seu filho, jovens a ir à escola. Contudo, esta autoridade é confrontada pela tentação ou desejo do destinatário de consumir drogas, portanto resposta que não é recebida com agrado pelo destinador. Perante a este cenário o filho ou o jovem é dado a enxada para experimentar o quão sofrimento se tem nesta atividade.
Deste modo podemos encontrar as seguintes relações de valores em cada oposição semântica:
A leitura temática que contatamos nesta letra o alfabetismo recebe valores que apontam a educação, a cultura refinada, o emprego confortável de escritório, emprego elitizado, ou seja, bem estar, portanto estar sociais aliados com aquisições de saberes da escola formal. Estes valores sociais aceites e valorizados contrastam com a marginalidade, a criminalidade, a perdição caracterizada pelo consumo das drogas situação adquirida com desvio do caminho da escola. Por último, encontramos no texto situações sociais de mal estar associados à experimentação da enxada significado como sofrimento, castigo, pobreza.  
Portanto, os sentidos presentes no texto colocam a agricultura como castigo, sujeito a quem não quer ir à escola.
Cotidianamente existe muita terra não trabalhada e a disposição de quem pretenda explorá-la. Jovens e adultos fogem da terra e evadem as cidades a procura de emprego assalariado. Como o emprego assalariado é escasso, muitos moçambicanos optam pelo mercado informal, criminalidade, roubo de celulares, assaltos entre outras práticas inclusive no sector agrícola, sobretudo como atividade assalariada nas fazendas do país vizinho, a República da África do Sul. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

DIÁLOGO POLÍTICO ENTRE AS LIDERANÇAS POLÍTICAS DE MOÇAMBIQUE


Domingo dia quinze de abril de dois mil e doze, somos brindados com a notícia do encontro de concertação sócio-político do líder da oposição em Moçambique, o presidente da Resistência Nacional de Moçambique (RENAMO) e o presidente da República de Moçambique e da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO). Volvidos poucos meses em que o país apresentava sinais do despontar da instabilidade, quando forças policiais atacaram a sede do maior partido da oposição, saldando um morto nas fileiras policiais, a urgência deste encontro era aguardada pelos moçambicanos preocupados com a estabilidade social-econômica e política do país.
Importa lembrar que Moçambique esteve mergulhada na guerra civil durante 16 anos. Esta guerra que colocava frente a frente o governo da FRELIMO e a RENAMO dizimou milhares e milhares de vidas. A circulação de pessoas e bens estava interrompida, a destruição estava por toda parte. O governo culpava a guerrilha liderada pelo líder da oposição Afonso Dlakama de promover a guerra de desestabilização. A RENAMO culpava o partido governamental de ser comunista, que perseguir as liberdades dos moçambicanos, de eliminar todos moçambicanos que se opunham aos ideais comunistas.
Destarte, o que se viveu foram as atrocidades de ambos os lados. Felizmente a guerra civil terminou com acordo de paz em 1992 e já fazem dezanove (19) anos e seis (6) meses que os moçambicanos respiram a paz aparente. Significamos como paz aparente porque embora vivermos a democracia e passarem 19 anos e 6 meses, o partido no poder continua a perpetrar ações que colocam a instabilidade dos moçambicanos. Promove as perseguições políticas e sociais. Em todas as instituições públicas a FRELIMO introduziu suas células partidárias, promove uns em detrimento de outros. Demite e despromove moçambicanos pertencentes aos partidos da oposição, favorecendo moçambicanos filiados ao seu partido. Faz cobranças coercivas, ilegais dos funcionários do estado para apetrechar o partido no poder.
O dialogo é importante para qualquer sociedade. É necessário que as pessoas interajam constantemente, pois isso demonstra preocupação para com questões sócio-político e econômico. A interação destas individualidades promove a estabilidade, a busca de consensos para com questões que apoquentam as sociedades Moçambicanas. Não devemos ser ingênuos a ponto de pensarmos que em Moçambique, seus povos têm interesses homogêneos. O país, Moçambique é composto pela diversidade étnica com interesses particulares, de pessoas com diferentes visões e valores, afinal, não esqueçamos que Moçambique como é conhecido é fruto da divisão fronteiriça aleatória à constituição de seus povos. O colonialismo fez a sua divisão em cima da mesa, não tomando em consideração a constituição étnica, político e territorial dos povos nativos, mas sim segundo interesses competitivos junto com seus pares colonizadores. Grupos étnicos com culturas particulares que provavelmente eram rivais, inimigos foram incorporados num só território, num só quintal.
Após as independências dos países africanos, nenhum país considerou a geografia étnico-territorial de antes da colonização político-administrativa, situação que provavelmente, quase meio século depois continua promovendo as clivagens étnicas camufladas nas lutas democráticas. 
Em muitos países continuam a existir diferenciações de acesso aos recursos indispensáveis para o desenvolvimento integrado dos indivíduos, regiões, províncias e tribos. Este estar faz emergir sentimentos de exclusão e consequentemente conflitos.
Entretanto, o erro persiste e está consumado. Assim, resta-nos sabermos viver, respeitarmo-nos e darmo-nos vez, promovermos o desenvolvimento integrado e diversificado para que uns não se sintam excluídos. Promovermos o diálogo constante, a paz. Isso sim irá colocar a estabilidade e desenvolvimento no país Moçambique. Axifeni (parabéns) Presidente da oposição Afonso Dlakama e Presidente do governo de Moçambique Armando Guebuza.
Algo a ressaltar, o diálogo entre as lideranças do país deve ser constante e deve também estender-se a outros lideres da oposição.
Antes de terminar, é pertinente realçar a importância da não partidarização das instituições do Estado, como escolas, ministérios, empresas públicas. A não partidarização destes sectores pode promover a tolerância, a coesão social e político, algo importante na construção de um Moçambique próspero.

terça-feira, 3 de abril de 2012

MUDANÇA DE SOBRENOME∕APELIDO: afinal, o que acontece nos povos não ocidentais?

No campo da crença, os sujeitos invadem, humilham, matam as identidades de outros sem, no entanto, observarem que tais atos são transgressores. Este estar sucede dentro da fé, da crença, crença essa comumente tipificada como fundamentalismo, ou seja, uma crença que extrapola a razão de ser compartilhada, interativa equilibrada dos indivíduos.

O fundamentalismo consiste em comportamento crente idiossincrásica que coloca os sentidos como únicos, verdades absolutas e inquestionáveis. O fundamentalismo não reflete sobre seu acto, pelo contrário, ovaciona-se pelo que reproduz, pois acredita que é o caminho a ser seguido. Assim, determinados povos matam, sequestram, estupram, colonizam, exterminam outros, excluem e apagam as identidades de outros grupos étnicos.
Na história da humanidade o cristianismo mudava os nomes dos povos não cristãos através da coerção física e psicológica. Esta coerção desembocou em mortes de seres humanos na fogueira. Muitos povos foram mortos em nome da crença durante a inquisição. Neste tempo histórico do cristianismo ocidental, as crenças não ocidentais cristãs, as ideias e saberes usualmente não partilhadas pela Igreja Romana Cristã eram significadas como más, diabólicas e assim sujeitas às sanções severas. Em muitos casos seus possuidores eram queimados vivos.
Em nome da pacificação, civilização povos foras exterminados e outros perderam suas culturas e identidades. A civilização, o cristianismo e o islamismo tiram a referência das pessoas, muda seus nomes e raízes para abraçar valores contrários a sua identidade, raça e etnia.
A questão da existência de nomes que se relacionavam com a maneira de vida, crença e, isto, acrescido pelo facto de serem não ocidentais-latino-cristã, catalisou a sua significação destas como diabólicas, não civilizadas e daí a perseguição de seus possuidores ou a sua eliminação.
Século XXI, 2012, a mudança de nomes, sobrenomes, a perda de identidade dos povos ainda se faz presente nos povos não cristãos ou não islâmicos e, sobretudo nos não ocidentais europeus cristãs.
A eliminação é feita pelas igrejas evangélicas cristãs, pelas leis etnocêntricas de determinados países e governos e, pela globalização econômica, política e cultural sob a máscara da civilização.
Muitos povos viram suas identidades mudadas pelo ato civilizador e homogeneidade política-administrativa de seus países. Africanos, americanos nativos, europeus inicialmente não cristãos.
A título ilustrativo podemos citar sobrenomes referentes aos objetos, arvores, conceitos de vida, crenças etc. Sobrenomes como Ferro, Carvalho, Madeira, Pereira, Oliveira, Senhor, jesus, Segredo, etc, fazem parte dos nomes ou sobrenomes de linhagens ou povos que primeiramente possuíam uma identidade própria não cristã romana.
No caso do continente africano, esta prática de mudança e eliminação de nomes africanos e seus sobrenomes teve seu apogeu durante a colonização europeia nos séculos XIX, XX e atualmente no século XXI. No vídeo intitulado Mandela, Pai de África e Filho de Uma Nação, o ex-presidente da República da África do Sul, Madiba Kholihlahla Mandela, revela que o seu nome sobejamente conhecido surgiu quando sua mãe o levou até a administração colonial, quando era adolescente. Chegado lá para registrá-lo, o oficial, colono pergunta a mãe, como é que se chama o menino?
Sua mãe responde prontamente, Madiba. O Oficial da administração, retorque, não! A partir de hoje, ele se chamará Nelson. Assim, nasceu o nome mundialmente conhecido, Nelson Mandela. Entretanto, como este nome era difícil de ser proferido e pronunciado pela família, os seus pais, o chamavam Nelisile, pronúncia ajustada à sua língua materna Txoza.
Recentemente, no mês de fevereiro, aqui no Brasil, uma emissora televisiva colocou no ar uma matéria de reportagem que apontava igrejas cristãs evangélicas, invadindo as reservas indígenas para convertercatequizar os povos indígenas residentes naquelas áreas demarcadas pela Fundação Nacional do Índio (Funai).
Esta conversão dos índios para vida cristã é acompanhada pelo apagamento de suas identidades, valores, culturas. É pertinente realçarmos que não se coloca em questão as ações que visam ajudar nos necessitados através da palavra de conforto emocional, rezas de alívio da dor ou cura no ser humano.
Retornando, há que referir que os sentidos que escapam nestas cruzadas evangélicas cristãs apontam que os valores do cristianismo de trezentos ou quatrocentos anos atrás permanecem os mesmos, ou seja, a obrigatoriedade de submissão dos indivíduos à cultura ocidental cristã, promovendo comportamentos e atitudes de negação das identidades culturais e de estar social de outros povos. O indivíduo deve se negar, negar seu nome, seu sobrenome, seus valores, para ser aceite como puro, santificado, ou seja, apagar seu eu para atingir o estágio de ser cristão.
Governos e organizações, ainda apegam-se nestes valores crentes cristãs incorporadas nas suas leis constitucionais para promoverem o apagamento das identidades e referência de outros povos. A Funai é uma destas organizações. Apesar de auxiliar os índios a usufruir de seus direto à terra, por muito tempo registrava estes povos com nomes ocidentais.
Entretanto, sabe-se que outras correntes cristãs, provavelmente moderadas entendem que o cristianismo resume se na conscientização do ser humano a se abster das práticas que não respeite o outro, nas práticas que interferem negativamente na vida social.
Entretanto, práticas ortodoxas cristãs como coerção psicológica para mudança das identidades dos não cristãos e, sobretudo, os nãos ocidentais são, até hoje, século XXI, praticadas em nome da salvação.
Sábado, dia vinte e quatro de março de 2012, o programa Ação e Cidadania exibido pela rede Globo mostrou o desenvolvimento sustentável de comunidades rurais formadas pelos nativos brasileiros, os índios.  A reportagem destacou a preservação das matas, o turismo comunitário com seus lodges e rádio.
Entretanto, algo despertou a nossa reflexão. Quase todos os nomes e sobrenomes dos entrevistados na grelha televisiva eram caracterizados pela grafia e significado ocidental. Nomes e sobrenomes como Cavalcante, Silva, Lopes, António Francisco, Souza, entre outros, caracterizavam a identificação daquele grupo étnico indígena. Não está em questão o desenvolvimento destes povos, o vestir, a obtenção de tecnologias, a construção de casas convencionais, pois usufruir estes objetos não apaga a identidade de um povo, mas o apagamento de nome e, sobretudo, sobrenomeapelido altera a identidade de um sujeito, alteram as referências de um indivíduo.
Há que ressaltar que atualmente, no Brasil vivem 817 mil índios, ou seja, cerca de 0,4% da população brasileira, segundo o senso de 2010, um número que revela o resultado do extermínio destes povos desde a invasão europeias até aos momentos atuais. Assim, a implementação de políticas públicas que respeite suas identidades, culturas e valores, e, auxiliem o desenvolvimento e sua autonomia é um direito fundamental.