sábado, 25 de agosto de 2012

A POLÍTICA QUANDO ACOMPANHADA POR INTERESSES DE TRIBOS ∕ GRUPOS, PESSOAS IDÓNEAS PERDEM CREDIBILIDADE

Itai Meque e Manuel de Araújo trocam acusações no dia da cidade

Quarta, 22 Agosto 2012 00:00 Redacção
COSSA, Lourenço

A política quando é acompanhada por interesses obscuros cega as pessoas que outrora foram educadores e com credibilidade. A política mediante interesses de grupos restritos, tribo, em uma sociedade faz com que determinadas pessoas idóneas percam a credibilidade social.
Em um comício alusivo as festividades dos setenta anos (70) da elevação à categoria da Cidade de Quelimane, o governador da província da Zambézia, portanto, pertencente ao partido do governo central, Frelimo promoveu rixa discursiva com o Presidente daquela cidade municipal de Quelimane Prefeitura ao alertar os munícipes a terem cuidado com a edilidade, pois segundo este governador, a edilidade está a vender o município através de sua parceria com entidades estrangeiras, ou seja, “Se os munícipes não fizerem algo, a cidade poderá ser arrancada pelos cidadãos de outros países”; “quando a oferta é demais, o povo desconfia. Munícipes fiquem de olhos bem abertos, porque podemos perder a nossa cidade” Itai Meque, governador da Província da Zambézia.
Contextualizando o leitor, sabe-se que o município de Quelimane faz parte de duas autarquias que estão nas mãos de Presidente de um partido da oposição, o MDM e é governado por Manuel de Araújo, um jovem académico que conseguiu no permeio de poucos fundos e muito esforço vencer o partido governamental provincial e central de Moçambique, a Frelimo nas eleições intercalares, acontecidos no quarto trimestre de 2011.
Perante a este discurso é nos legítimo questionarmos que discurso é esse do governador da província de Zambézia? Como pode um docente universitário da Educação de profissão proferir palavras que reflete um não pensar e reflexão perante a sociedade?
Como seria se o Estado moçambicano se isolasse neste mundo, não se permitindo estabelecer parcerias que possam trazer o desenvolvimento, investimentos para seu país?
A resposta é simples, perante as dificuldades e carências em infraestruturas e finanças, um Estado sem parcerias seria inoperante e mergulharia e caos. Um caso concreto é precisamente o Estado moçambicano que recebe financiamento externo anual em forma de doações e empréstimos de países industrializados. O Orçamento do Estado recebe aproximadamente 47 a 55% do dinheiro externo para funcionar e, no entanto não é questionado ou acusado de vender o país.
Por outro lado, a sociedade civil moçambicana critica o secretismo dos contratos governamentais de todos os projetos de exploração de hidrocarbonetos, gás natural, carvão mineral, areias pesadas e outros minérios com as empresas multinacionais estrangeiras. O governo nunca dá ouvidos à mesma sociedade. 

Seria legítimo, na nossa ótica que povo moçambicano ou a sociedade civil questionasse ou colocasse o governo central na parede pelo facto do Presidente da República ter decidido conceder à Vale Moçambique Vale do Rio Doce, uma empresa multinacional extrativista, a atribuição definitiva do Uso e Aproveitamento e a concessão de todo o Corredor do Desenvolvimento de Norte à Vale, exclusivamente depois de um jantar na casa do presidente desta empresa Vale em junho durante o RIO + 20. Isso sim para nós trata-se de atentado a integridade e soberania do país e ao Estado Moçambicano. Além de constituir empecilho à concorrência e interesses dos pequenos investidores moçambicanos que desenvolvem seus negócios no percurso daquela linha de transporte ferroviária de mercadoria, isso sim mostra a venda de Moçambique, pois nenhum de nós moçambicanos sabe ao certo em que circunstância se chegou a "disponibilização" exclusiva da linha de transporte ferroviária de mercadorias que a priori devia servir interesses mais amplos de muitas empresas que exploram minérios no Norte do país na casa de um cidadão milionário brasileiro.
“Jantar em casa do presidente da Vale representa uma promiscuidade ao mais alto nível de um governante. O que devia ter acontecido é o presidente da Vale jantar na presidência da República à convite do Chefe do Estado. Um Chefe do Estado deve saber que é representante do Estado e não dos seus próprios interesses. Se quisesse jantar com o presidente da Vale, na sua casa, Guebuza podia-o fazer durante as suas férias, não aproveitar uma viagem do Estado para recepções anti-écticas” “MABUNDA, 2012).
A acrescentar a esta situação há que lembrar ao eleitor que de fato o país está na mesa do bazar, no Dumbanengue, mercado paralelo e não é de hoje. Em 2006, no princípio deste ano, a Vale reclamava da falta de atenção do Estado moçambicano no permeio das diversas companhias com haviam ganho a concessão para exploração dos mineiros. Foi neste cenário que o Brasil, através de seu governo fez uma doação de alguns milhares de dólares Reais ao Estado “moçambicano” em uma oferta suspeita. Seguidamente, o que se viu foi o desbloqueio de todos supostos empecilhos com o governo moçambicano. Certamente, esta oferta não foi amplamente difundida na mídia brasileira, pois logicamente desencadearia repúdio na população brasileira. Na verdade aquele montante se destinava exclusivamente ao desbloqueio das “sensibilidades”, permitindo o destaque desta empresa multinacional brasileira. Em nosso entendimento, esta conjuntura constituiu o prenúncio do que pode se chamar a “promiscuidade” do dirigente máximo do Estado moçambicano.
Em um período deste em que muitos Estados e Governos estão ávidos pela proteção da sua indústria de modo a projetar seu empresariado, a existência de Estados frágeis, corruptos é recebida com desvelo, pois permite que seus interesses se ampliam em pouco tempo e com menos gastos corrompendo um sujeito ou um grupinho de poder em países como Moçambique. Uma “ofertazinha” ao orçamento do “Estado” garante a drenagem de rios de divisa a seus países e a suas economias em detrimento de um projeto amplo dos países portadores de matérias primas. É a lei da selva, os mais fortes inteligentemente se dão bem, apesar da falta da ética destes e em detrimento dos supostos fortes, menos inteligentes e sem o senso comum do desenvolvimento das suas sociedades e países.
No Brasil e em muitos países onde resida a ordem, esta prática desencadearia CPI, cassação e Desgaste do Governo e do Presidente.
Perante a esta explanação muitos dirão que esta situação é normal, tratando-se de Moçambique que está a construir sua democracia. Nós não concordamos, pois não somos obrigados a andarmos de calhambeque num período em que se anda de Toyota Hilux. Não somos obrigados a estabelecermos a comunicação com nossos amigos usando o Nókia 2110 e 5110 enquanto que na atualidade circulam os Smartphone e Android. É necessário se combater práticas prejudiciais ao desenvolvimento comum, integrado de nosso país e fortalecer-se práticas políticas públicas que funcionam por meio de agenda comum, sem diferenciação entre partidos e grupos. Isto, certamente promoverá o desenvolvimento de nosso país e não de grupos restritos.
 
 
MABUNDA, Lázaro O QUE HÁ DE ERRADO NA RECANDIDATURA DE GUEBUZA, À PRESIDÊNCIA DO PARTIDO? In: Jornal "O PAÍS" – 06.08.2012
MEQUE, Itai. Itai Meque e Manuel de Araújo trocam acusações no dia da cidade. In: Jornal “O PAÍS” – 22.08.2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

TRABALHADORES MINEIROS SÃO MASSACRADOS PELA POLÍCIA NA AFRICA DO SUL


COSSA, Lourenço

Notícia que vem do continente africano dá conta de que aproximadamente trinta e seis (36) trabalhadores mineiros foram massacrados pela polícia na República da África do Sul. Os trabalhadores que hoje dia desaseis (16) de agosto de 2012 foram massacrados pela polícia manifestavam-se por melhorias salariais.
Da forma como as imagens da execução dos trabalhadores mineiros foram gravadas e mostradas emissoras da televisão nos faz voltar no tempo, a memória dos tempos da Apartheid, quando o governo minoritário branco-boer, empunhando armas de fogo contra a população civil executava sem nenhuma piedade a população sul-africana negra que queria a paz e liberdade de ir e vir em seu país. Passados 22 anos depois da soltura do Madiba Mandela da prisão perpétua, seguida pelas eleições integradoras dos povos sul-africanos que o colocaram como presidente exemplar para todo continente, as cenas de execução ao estilo branco-boer voltam à ribalta treze anos depois deste líder histórico entregar a presidência e poder na África do Sul.
Reza uma postura moderada da polícia em situações de estresse, mas com o uso de balas de borracha e com polícias de choque, portanto, forças preparadas para travar a fúria dos manifestantes, situação que não aconteceu nas manifestações dos mineiros sul-africanos hoje dia 16 de agosto de 2012. A polícia usou balas letais e com a intenção clara de matar. Esta certo que a polícia tem que se defender e sabemos que os sul-africanos são violento na sua forma de manifestar, mas a polícia como instituição do Estado deve ir acudir com precaução e preparado.


É legítimo questionarmos, afinal aonde vai esta África cujo seus líderes mobilizaram seus povos a lutarem contra a colonização de europeus para em contrapartida substituírem os com as mesmas práticas nefastas antes repudiadas?
Não quererão nos amostrar que a mobilização dos povos africanos para se rebelarem contra a colonização europeia visava apenas interesses umbilicais de tais lideranças, afinal os mesmos já tinham a formação idiossincrásica política, cultural e administrativa do colono?
Não queremos afirmar que todas as práticas políticas das lideranças do continente africano estejam deslocadas da governação que respeite as liberdades dos indivíduos. Existem países africanos que são exemplos de distribuição de renda, coesão social e política, mas nos últimos anos visualizamos situações desconfortáveis de práticas políticas nefastas contra os interesses dos povos africanos, negros a favor dos interesses de pequenos grupos de elites políticas o que compromete a estabilidade que estes povos almejam.
É tempo para a redefinição de uma África, a África Austral livre dos dogmas da humilhação de seus povos, do silenciamento, das ditaduras.

Atualização: Até esta data 21de agosto de 2012 contabiliza-se 44 trabalhadores massacrados impiedosamente pela polícia sul-africana.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

ACESSO AOS CÓDIGOS DAS CLASSES DOMINANTES versus COLONIZADORAS




É consensual entre muitos teóricos que as classes dominadas devem ter acesso aos códigos da cultura dominante. Contudo, há que referir que não se trata de ter acesso simplesmente, mas esse acesso deve ter um propósito definido e não para subjugar os dominados e despojá-los de suas línguas, culturas, identidades. A apropriação da língua estrangeira não deve servir como instrumento para eliminar a identidade dos colonizados, pois se isso acontecer estes mesmos povos depararão-se com muitos entraves para significar o mundo que os rodeia e consequentemente para se desenvolverem. A língua materna é um instrumento incontornável de desenvolvimento de um povo, comunidade, dado que permite a mobilidade dos sentidos, a abstração etc. Os teóricos já apontam que nenhum povo, criança conseguem se desenvolver de forma plena usando a língua segunda e, pior, em uma língua que foge dos padrões semânticos e sintáxicos da sua língua materna igualmente o que acontece em certos países africanos como Moçambique. As línguas europeias estão longe de possibilitar a escolarização plena e efetiva das comunidades africanas. Não digo que elas devem ser extintas e potencializar apenas as línguas africanas, mas sim, que devem conviver dentro da diversidade, afinal está é a realidade. O isolacionismo não faz parte deste momento histórico caracterizado pela circulação da informação em menos tempo ou com apenas um clic.
É fato que povos isolados de se fazerem, mostrarem-se e sentir o pulsar no mundo, das coisas, da informação fica fora do desenvolvimento. Sabendo isso porque não se potencializar as línguas africanas se as tecnologias de tradução estão mais avançadas? 
Porque os africanos veem apenas uma única forma e alternativa de se desenvolverem sufocando suas formas de significar o mundo?
Porque os africanos insistem em apropriar-se das teorias cartesianas da unidade apenas em uma língua, cultura, valores europeus em um momento histórico em que todo mundo enxergam a colocação no mercado sua cultura como fonte se atração?

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

OS MARATONISTAS AFRICANOS DÃO SHOW NO ENCERRAMENTO DAS OLIMPÍADAS DE LONDRES 2012 E OS INGLESES DÃO SHOW DA INCLUSÃO


Os maratonistas africanos, um de Uganda com medalha de ouro e dois de Kénya com as medalhas de prata e bronze, consecutivamente brilharam no encerramento das olimpíadas de Londres 2012.

é tempo ou ainda é tempo para que os governos africanos potencializem as práticas desportivas em seus países. Esta potencialização pode ser efetivada através do currículo escolar na disciplina de educação física. O aproveitamento inicial das potencialidades humanas podia ser nos esportes que exigem poucos investimentos em termos de recursos financeiros até aos que exigem mais finanças. As republicas do Kénya, etiópia, Uganda mostram como isso é possível. Devemos aprender com eles.

Nas olimpíadas de Londres os ingleses mostraram seu país como inclusivo onde cada grupo étnico, raça participa na construção da inglesia.

2016 é a vez do brasil. a pergunta que não quer calar é se esta inclusão irá se mostrar nos jogos olímpicos do rio de janeiro 2016, uma vez que até na televisão somos brindados com imagens de um país escandinavo de onde não existam, provavelmente, outros grupos étnicos ou raças além de brancos. É, nas telinhas, apenas vimos outras etnias na qualidade de “favelado” (comunidade), pessoas pobres, drogados e a polícia a invadir suas comunidades, procurando drogas, com mortes e choros por todo lado. Os indígenas brasileiros mostrados na qualidade de exóticos, pessoas que quando vistas a operarem meios tecnológicos parece caírem no engraçado, algo pouco conveniente.

Estas olimpíadas devem servir de aprendizado ao brasil e a todos nossos países africanos, pois apesar de termos tido a independência política, administrativa e “econômica” continuamos a nos digladiar uns aos outros.
Parabéns aos ingleses, ao continente africano que enviou seus povos a competir nos jogos de Londres, a Uganda e Kénya.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

LÍNGUA E DEMOCRACIA EM MOÇAMBIQUE



COSSA, Lourenço


A língua é um instrumento de interação e da participação da sociedade em uma nação, o que hipoteticamente pode projetar a possibilidade do desenvolvimento desta mesma. Esta participação nem sempre se faz presente em sociedades onde dentro do mesmo espaço territorial coexiste a diversidade linguística como, por exemplo, na s sociedade s moçambicana s.

Lembra-se que a maioria dos países africanos colonizados pelos países europeus, depois de conquistarem suas independências políticas, administrativas apropriaram-se das línguas dos colonizadores, transformando-as em línguas oficiais e, por vezes, sufocando as suas línguas nacionais conforme as políticas adotadas que na realidade pertence pertenciam às culturas ocidentais.

No permeio desta situação é legítimo indagar-se como é que essa mesma sociedade pode participar de seu meio na situação em que lhe é despida o instrumento que possa efetivar as trocas de saberes, neste caso, a sua língua materna.

Se pode verificar Este assunto é de suma importância, pois a sua abordagem pode provavelmente despertar nos que decidem em torno das políticas públicas a dar se mais visibilidade às línguas e culturas nacionais moçambicanas, afinal o desenvolvimento de um país não pode ser dissociada das línguas e culturas de seus povos.

Temos visto o uso das línguas nacionais nos comícios populares orientados pelos políticos, Presidente da República nos seus deslocamentos a diversos pontos do país até aos mais recônditos de Moçambique, distritos e localidades ou municípios e distritos municipais fora da zona predial da capital. O presidente ou outro membro do executivo orientam seus comícios usando a língua portuguesa, portanto estrangeira na visão ou ótica dos populares – a língua de valungo, dos brancos, ou seja, xilungo. Paralelamente a esta língua oficial adotada como língua que orienta o discurso público é muito comum e sempre se faz a tradução com um intérprete transmitindo em língua local que pode ser Xirhonga, Xitsua, Xichangana, Emácua, Echuabo, Xicena etc.

O Presidente ou a entidade que orienta o comício popular está para mobilizar, falar de certo assunto ao povo, às populações e faz isso, pois sabe que aquele povo não o irá entender se falar em apenas a língua oficial portuguesa, neste  caso xilungu-língua do branco.

O dirigente vai despejar saberes ou informações e muita coisa, sentidos emergem ou poderiam emergir naquela situação. No entanto, perde-se, pois as línguas não estão próximas. Existe o fosso entre elas.

Por um lado, a língua oficial de orientar os discursos públicos e por outro as línguas que medeiam os sentidos das populações, que trabalha em consonância com os valores, com as culturas, símbolos e a religiosidade.

Mediante a esta situação como é que as políticas de desenvolvimento que são concebidas e direcionadas ao povo que tem línguas próprias que se separam e não interagem com a língua oficial irão produzir os efeitos desejados na agricultura, no turismo e na produção de bens variados?

Será que um povo afastado da interação oficial com uso da sua língua é capaz de participar efetivamente na democracia ou na construção de seu país?

Ora, estas são questões relevantes e que merecem ser abordadas continuamente na s sociedade ∕ s moçambicana s, pois envolvem a vida de uma sociedade, de um povo. Por outro sabemos que discussão em torno de questão como essa é interminável devido à relações de poder que a língua envolve, afinal, os detentores da língua portuguesa sentem estar no centro das atenções, do poder, portanto, na situação de “igualdade” como seus herdeiros portugueses se sentiam perante ao nativo indígena falante das línguas vernáculas de Moçambique. Assim, a língua, ao mesmo tempo em que é um instrumento de troca, de interação, ela é por outro lado instrumento da diferenciação. Quando falo perante a um outro sujeito que não tem domínio dela, me sinto em cima e os sentidos que produzo são equidistantes do doutro e sobretudo, o outro enxerga-me em um lugar inalcançável. Ele, até gostaria de interagir em um patamar de igualdade comigo, mas se sente impotente, pois lhe falta este instrumento, língua estrangeira de que eu me apropriei e que orienta os sentidos públicos em Moçambique. Isso me coloca no patamar de poder ser, fazer e querer.

Esta posição, logicamente contrasta com o discurso utilizado para justificar a relevância ou necessidade da presença exclusiva da língua portuguesa, a estrangeira nos discursos oficiais, esta tomada como língua oficial e de Unidade Nacional.

A adoção da língua estrangeira europeia em Moçambique é tida como a solução para se contornar a diversidade linguística e cultural do país, afinal Moçambique tem aproximadamente dezenove (19) línguas distribuídas pelas onze (11) províncias, incluindo a capital do país, Cidade de Maputo que recebe a categoria de uma província. Nisto, depois da independência nacional em 1975, todas as línguas nacionais e seus falantes foram bombardeadas com nomes antirrevolucionários diversos, desde tribalismo, regionalismo etc. Nas escolas e salas de aulas, as crianças sofriam punições diversas se estas fossem surpreendidas a falarem ou a interagirem através das suas línguas maternas. As punições variavam desde palmatórias, reguadas (pequena tábua de madeira em que os professores utilizavam para bater), varas de arbustos, castigos diversos.

Todo este aparato da repressão física e mental contra as línguas e culturas moçambicanas se destinava para a construção de um país unido de Rovuma ao Maputo e do Índico (oceano) ao Zumbo sem a diversidade, mas sim com uma única língua, cultura, a nação moçambicana. Entretanto, as línguas e as culturas moçambicanas resistiram.

Mas é indubitável que a língua é um instrumento de poder e certamente que a elite política negra tenta incansavelmente colocar ou transmitir este poder na maioria dos moçambicanos falantes, ainda das línguas nacionais através da oficialidade exclusiva da língua portuguesa sobre as línguas nacionais.

Contudo, será que o falar da língua materna pode ser um sinal da divisão da sociedade moçambicana?

O que faz os moçambicanos serem uma nação não é o fato serem obrigados a falarem ou terem a língua portuguesa como oficial, mas sim é a partilha de uma mesma história, a colonização, mesmos heróis, a mesma luta travada para expulsão do colonialismo português, a divisão do mesmo espaço geográfico.

Lembra-se que atualmente, visualizam-se discursos que apontam a inconformidade entre os desníveis de desenvolvimento das regiões de Moçambique, algo que é verídico. Tais discursos são acompanhados pelos sentidos belicistas entre os moçambicanos naturais do norte do país e os do sul. Tais sentidos reclamam contra as lideranças do sul desde a independência  e o fato do norte de país ser a mais “pobre” região no país. Uma coisa é que tanto os que se sentem vítimas quanto os tidos como detentores de poder, constituem a elite linguística do poder através da língua estrangeira, portuguesa. As populações falantes das línguas nacionais estão fora destas discussões, mas em contrapartida as suas línguas são tidas como as que perigam a unidade do país.

As mesmas populações estão fora do jogo democrático e a sua contribuição na construção do país se dá por meio do trabalho árduo por detrás das suas enxadas.

Devido à sua exclusão linguística, ficam na maioria dos casos fora da informação, fora do discurso visual que caracteriza a era tecnológica.

No entanto, se as suas línguas fossem incluídas na oficialidade e na construção do país, certamente que produzir-se-ia informações que permitiriam o acesso às inovações tecnológicas de modo a produzirem com eficácia, abundantemente e sobretudo com informações de como comercializarem seus produtos. Sabe-se que um indivíduo aprende mais rápido e eficazmente na sua língua materna do que na língua segunda e pior na língua estrangeira sem conexão possível com o núcleo linguístico da língua a qual pertence.

Assim, as línguas nacionais poderiam ser instrumentos de poder e decisão na vida da maioria dos moçambicanos. Esta não deve ser usada apenas para a difusão de ideologias partidárias, mas sim para orientar todos os sentidos que possam desenvolver as populações moçambicanas.

Se a língua oficial se faz sentir nas populações a partir das traduções de intérpretes e assim dissemina seus valores, porque o contrário não pode suceder, das línguas nacionais se fazerem sentir na oficialidade através da interpretação, imprimindo, assim seus valores e simbologia?

A PORTA

TEXO DE MIA COUTO

Era uma vez uma porta que, em Moçambique, abria para Moçambique. Junto da porta havia um porteiro. Chegou um indiano moçambicano e pediu para passar. O porteiro escutou vozes dizendo:

- Não abras! Essa gente tem mania que passa à frente!
E a porta não foi aberta. Chegou um mulato moçambicano, querendo entrar.
De novo, se escutaram protestos:
- Não deixa entrar, esses não são a maioria.
Apareceu um moçambicano branco e o porteiro foi assaltado por protestos:
- Não abre! Esses não são originais!
E a porta não se abriu. Apareceu um negro moçambicano solicitando passagem. E logo surgiram protestos:
- Esse aí é do Sul! Estamos cansados dessas preferências...
E o porteiro negou passagem. Apareceu outro moçambicano de raça negra, reclamando passagem:
- Se você deixar passar esse aí, nós vamos-te acusar de tribalismo!
O porteiro voltou a guardar a chave, negando aceder o pedido.
Foi então que surgiu um estrangeiro, mandando em inglês, com a carteira cheia de dinheiro. Comprou a porta, comprou o porteiro e meteu a chave no bolso.
Depois, nunca mais nenhum moçambicano passou por aquela porta que, em tempos, se abria de Moçambique para Moçambique.
Mia Couto

Este texto, supostamente de Mia Couto foi extraido de uma mensagem postado na página dos Mozucas postado por membro Mozucas – moçambicanos estudantes ou que estudaram na República Federativa do Brasil.
A sua colocação aqui neste blog reflete a filiação discursiva deste para com nosso posicionamento de repulsa contra todas as formas de exclusão entre os moçambicanos no acesso as riquezas do país em favor das multinacionais e estrangeiros.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

OS NOVOS COLONOS AFRICANOS DO CONTINENTE AFRICANO

                                                “Lutei contra a dominação Branca e lutei contra a 

dominação negra. Eu brindei um ideal de uma

 sociedade democrática e livre na qual todas as

pessoas vivam juntas, em harmonia e em

 iguais qual eu espero viver e alcançar”.

Nelson Mandela

Nos últimos quatro (4) anos, a mídia impressa e televisiva tem nos brindado com discursos que apontam desconforto de certos líderes africanos em relação à circulação de sentidos que questionam a sua governação. O conteúdo destes sentidos desconfortáveis para as elites políticas residem na maneira como as sociedades estão sendo governadas, ou seja, como os governados presenciam e vivenciam a corrupção, a exclusão e as ostentações desmedidas praticadas por seus governantes e, sobretudo pelo descaso para com as políticas públicas.

Por vezes, a impressão que salta aos olhos das sociedades é de que as elites políticas que na realidade fazem parte também das elites econômicas, antes heróis nacionais dos países africanos se transformaram em elites brancas sob a “máscara negra”¹, “o artifício do homem branco inscrito no corpo do homem negro”², ou seja, elites que são o reflexo da “visibilidade da mumificação cultural na ambição declarada do colonizador de civilizar ou modernizar o nativo, que resulta em ‘instituições arcaicas inertes [que funcionam] sob a supervisão do opressor como uma caricatura de instituições férteis’”³.

As práticas antes protagonizadas pelos colonialistas ocidentais, a humilhação, o desalojamento dos nativos em suas terras férteis, a tortura, o trabalho forçado e as cobranças de impostos sem retorno sobre suas vidas, portanto, coisas que foram motivos de repúdio ao ponto de se pegar em armas e lutar-se para expulsá-los estão tendo destaque no momento atual, pós-independência. Esta situação coloca certos segmentos da sociedade a questionarem das reais intenções dos heróis nacionais no que foi a mobilização do povo contra o colonialismo ocidental.

A coisa que o colono europeu branco não conseguiu fazer em 500 ou a 100 anos da colonização no continente africano, os heróis (colonos africanos pretos), pessoas assimiladas escolarizadas e munidas pelas ferramentas psicológicas e valores do colonizador europeu, sujeitos que se transformaram na elite política depois das independências conseguiram em menos de 20 a 40 anos. Mais do que nunca, o combate aos valores dos povos africanos, as línguas, a medicina, a religiosidade, a estrutura econômica e política foi ou está sendo avassalado.

A questão que se pode colocar é como estes indivíduos conseguiram provocar estes deslocamentos em pouco tempo das independências de seus países?

Como é que o colonizador europeu não conseguiu efetivar seus anseios da civilização e eliminação das culturas, línguas e valores africanos em aproximadamente 80 a 100 anos da colonização administrativa?

A resposta ou uma das respostas para esta questão é a seguinte:

- Durante os anos da colonização, exploração e humilhação dos povos africanos pelos colonizadores ocidentais, a cultura, as línguas africanas serviam como instrumentos de resistência contra a ocupação colonial. Todas as populações africanas falavam suas línguas nativas, desenvolviam seus códigos, símbolos e produziam instrumentos eficazes para se contrapor às ideologias colonizadoras. Terminada a colonização europeia dos brancos surgiram novos colonialistas, arrogantes e ditadores. Os novos exploradores africanos da pele negra.

Os sucessores dos colonizadores e exploradores europeus introduziram instrumentos ideológicos pró-eurocêntricos, que propiciassem a eliminação das simbologias, das culturas, línguas africanas nativas. Conseguiram catalisar este processo porque são negros e aos olhos de “seus povos”, dos povos africanos estes indivíduos eramsão libertadores, seus heróis.

Esta situação os colocou na posição privilegiada e tiveram a oportunidade de promoverem políticas que lhes constituíam, afinal a formação deles se deu dentro do processo da colonização onde o pensamento iluminista é relevante. No permeio da crença do herói, por terem unidos seus povos contra a ocupação colonial europeia e, sobretudo por pensarem que a expulsão dos brancos abria a oportunidade de guiarem suas vidas, determinarem seus destinos, construírem seus países de acordo com suas ansiedades, os povos africanos se desarmaram. Relacionaram a questão da exploração com a questão da pele, da raça, portanto, coisa do colonizador.

Contudo, as políticas iniciais depois das independências se concentraram na eliminação de todos os instrumentos que proporcionavam a união e colocavam os povos africanos unidos e fortes para se opor contra a colonização, as línguas e as culturas africanas.

Conquistadas as independências “esqueceu-se” que estes instrumentos culturais são os que exatamente os fortaleciam e os faziam enriquecer dentro da diversidade.

Os povos africanos, de certa forma consentiram serem submetidos às políticas do apagamento de suas identidades, suas culturas em nome da coesão social, já que dentro dos territórios havia a diversidade de línguas e culturas. As teorias coloniais da homogeneidade e do perigo da diversidade que fizerem lá no continente europeu se exterminarem muitos povos e nações em nome da necessidade da existência de uma nação, de um só nome, uma cultura, uma só religião, somente uma língua estavam se instalando e efetivando entre os africanos, justamente pelos negros. As ansiedades dos colonos brancos estavam se concretizando, só que desta vez protagonizados pelos negros, os mesmos que lutavam contras estas práticas nefastas.

As ansiedades coloniais não se restringiam apenas nas simbologias africanas, mas aos diferentes objetos de valor como os recursos naturais, exatamente como os colonos e exploradores europeus ansiavam.

Ao se darem conta, os povos viramveem suas terras usurpadas e devolvidas aos anteriores usurpadores, os colonos brancos, tudo isso feito em nome do desenvolvimento.

Na concepção das políticas do desenvolvimento as teorias da atração dos investimentos estrangeiros na agricultura, na mineração entre outros, promovem o êxodo das multinacionais, singulares ocidentais e asiáticos ao continente africano e internamente pouco se promovem na potencialização dos nacionais nativos em ferramentas que os possibilitem explorarem seus recursos e saírem da pobreza a qual estão sendo submetidos pelas atuais elites políticas negras.

Sabe-se que a construção de um país leva tempo e é um desafio, mas há que se considerar que país como Moçambique não é um território de emigrantes como aconteceu nos países americanos e da Oceania. Moçambique é um país constituído pela diversidade étnica linguística determinada, como suas estruturas familiares e de valores bem localizadas. Na sua história, a questão de dominação ou governança sempre existiu. Contudo, apesar de possuir esta história de subjugação jurídica e administrativa de impérios, a questão de diversidade de línguas, de valores foi sempre respeitada.

É a partir das tentativas de marginalização e eliminação das formas de viver, das línguas, dos valores milenares, e da entrada forçada de novos valores de outros povos não africanos que alguns setores sociais questionam a teoria da independência sobre o colonialismo europeu. Os fatos contextualizados apontam que ainda não se alcançaram as independências totais e completas como se supõe se haja. Ao se expulsar os colonialistas ocidentais europeus, apenas se substituíram estes pelos colonialistas pretos mascarados, seus discípulos. Cumpria-se “a fantasia do nativo de ocupar o lugar do senhor”4.

Nas fases derradeiras, próximo às independências, o colonialismo havia formado seus sucessores, pretos munidos pelo aparato teórico e comportamental da exclusão, arrogância e ditadura. Na verdade, os heróis escolarizados pelo colono, ao mobilizarem as populações africanas, maioritariamente sem a escolarização eurocêntrica colocou na sua mente a esperança da liberdade de se sentirem africanos de acordo com as suas diversidades e tomarem as rédeas de seu desenvolvimento.

Eduardo Mondlane, o primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), assassinado durante a luta armada de libertação destacou em seu discurso que “os elementos positivos da nossa vida cultural, ‘tais como as nossas formas de expressão linguística’, as nossas músicas e danças típicas, as peculiaridades regionais de nascer, crescer, amar e morrer continuarão depois da independência para florir e embelezar a vida da nossa Nação. ‘Não há antagonismo entre as realidades da existência de vários grupos étnicos e a Unidade Nacional’” (MONDLANE, 1967 p.79).

Contudo, o que sucedeu depois da expulsão dos colonos brancos foi a substituição pelos colonos pretos e estes apropriaram-se da máquina repressiva, perpetuando as mesmas humilhações que antes sofriam contra os colonos europeus, só que desta vez protagonizados pelos seus próximos em termos da cor da pele. O fato de obterem saberes diferenciados europeus e o poder de interditar a circulação das línguas africanas nativas, antes seus, coloca-os diferentes dos demais, configuram a personalidade europeia, ou seja, brancos negros – valungo-va-ntima.

Para não se sentirem ameaçados pelos seus próximos da pele recorrem aos seus instrutores colonizadores brancos, “patrões” no dizer de Samora Machel e, trazem de volta para o continente africano, empresas multinacionais, “organizações não governamentais” (não todas) para desalojarem as populações, humilharem e matar, os mesmos pretos cujo eles fazem parte, visivelmente. As empresas multinacionais e alguns governos ocidentais são a retaguarda de muitos líderes e governos africanos ditadores. Enquanto estes servirem os interesses ocidentais, estes governos estão acima de qualquer suspeita. São governos do povo, democráticos. Esta posição apenas muda quando tais governos tentam ser autônomos e querem definir suas políticas. A partir deste momento passam a envergar a camisa de ditador, tirano.

Internamente, estes governos investem pouco na intelectualidade e populações locais e fazem lobbies com as organizações e entidades estrangeiras para fraudar as eleições internas ou para obterem auxílios financeiros e tecnológicos que os deem suporte para conterem as insatisfações populares muita das vezes generalizadas em seus países.

Exemplos dessas são inúmeras. Podemos recorrer no artigo que lançamos recentemente “O NEOCOLONIALISMO DO BRASIL SOBRE MOÇAMBIQUE” (2012), onde temos as empresas como a Mozal, uma empresa que produz alumínio destinado às empresas como Boeing, altamente poluente e instalado na cidade, no meio das povoações, ou seja, em um raio de 100 quilómetros desta multinacional que emitem substâncias tóxicas (fato sempre refutado por esta empresa e pelo governo apenas) existem aproximadamente mais de um milhão de habitantes. Se esta empresa depara com algum problema no seu processo produtivo opera em sistema sem filtro, o chamado by-pass e sem fiscalização independente.

Dentre outras empresas de extração predatória de corte de madeira nacional em bruto para o mercado asiático e que em alguns casos operam na ilegalidade, temos a empresa mineradora brasileira, a Vale. Esta empresa extrativa já arrancou a população nativa das suas terras e de seus ancestrais os colocando em lugares sem condições adequadas e humilha-os a seu bel prazer quando estes reclamam. Quando as populações reclamam, o governo, em detrimento de procurar satisfaze-los manda seu aparato policial repressor para esmaga-los sem piedade.

Por outro lado assinam protocolos com fazendeiros brasileiros, japoneses e sul-africanos brancos na sua maioria para usurpar as terras dos nacionais. A construção de reserva dos animais para o turismo têm outros desdobramentos repletos de atos colonizadores. Desalojam-se as populações de suas terras, portanto circunvizinhas dos projetos de parques naturais e também os que vivem dentro das áreas abrangidas por tais investimentos das reservas para os animais, mas sem a inclusão destes nos benefícios futuros advindos de tais investimentos. Proíbe-se e penaliza-se qualquer membro da população no entorno das reservas que matar qualquer animal para sua refeição ou quem matar um animal que se invadiu destes locais e posteriormente dilacerou sua machamba.

Parque e os animais devem ser defendidos contra ações da caça furtiva. Até ai entende-se, mas contraditoriamente assiste-se a vinda dos antes colonizadores europeus, pessoas singulares, elites, ricos, personalidades públicas e anónimos europeus para realizarem a chamada caça desportiva! Enquanto um membro da população local cujo aquele território lhe pertence de fato e, é de seus ancestrais é proibido, penalizado e morto se for encontrado a praticar a caça para sua refeição deixa-se, permite o colono a matar os animais para simplesmente praticar a caça desportiva.

Que governos temos no continente africano? De africanos para africanos ou de africanos para os europeus?

É urgente a adoção em países africanos de políticas que protejam os africanos, promovendo o bem estar e, sobretudo políticas públicas que deem visibilidade às línguas vernáculas, às culturas, pois nenhuma educação e desenvolvimento de um povo se concretizam de fato sem se dar destaque as simbologias características, as formas de significar a vida e o meio deste mesmo povo. Isso não quer dizer o isolamento, mas a contextualização, se acontecer a interpelação com o outro.  

¹(FENON, 1986).

² e 4(BHABHA, 2005 p.76).

³(RUSHDIE, 1988 apud BHABHA, 2005 p. 75).

COSSA, L.